sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Tabacaria

Não sou nada. 
Nunca serei nada. 
Não posso querer ser nada. 
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo. 


Janelas do meu quarto, 
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é 
(E se soubessem quem é, o que saberiam?), 
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente, 
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos, 
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa, 
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres, 
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens, 
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada. 

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade. 
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer, 
E não tivesse mais irmandade com as coisas 
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua 
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada 
De dentro da minha cabeça, 
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo como quem pensou e achou e esqueceu. 
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo 
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora, 
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro. 

Falhei em tudo. 
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada. 
A aprendizagem que me deram, 
Desci dela pela janela das traseiras da casa, 
Fui até ao campo com grandes propósitos. 
Mas lá encontrei só ervas e árvores, 
E quando havia gente era igual à outra. 
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar? 

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou? 
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa! 
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos! 
Génio? Neste momento 
Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu, 
E a história não marcará, quem sabe?, nem um, 
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras. 
Não, não creio em mim. 
Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas! 
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo? 
Não, nem em mim... 
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo 
Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando? 
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas - 
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -, 
E quem sabe se realizáveis, 
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente? 
O mundo é para quem nasce para o conquistar 
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão. 
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez. 
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo, 
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu. 
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda, 
Ainda que não more nela; 
Serei sempre o que não nasceu para isso; 
Serei sempre só o que tinha qualidades; 
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta 
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira, 
E ouviu a voz de Deus num poço tapado. 
Crer em mim? Não, nem em nada. 
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente 
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo, 
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha. 
Escravos cardíacos das estrelas, 
Conquistámos todo o mundo antes de nos levantar da cama; 
Mas acordámos e ele é opaco, 
Levantámo-nos e ele é alheio, 
Saímos de casa e ele é a terra inteira, 
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido. 

(Come chocolates, pequena; 
Come chocolates! 
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates. 
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come! 
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes! 
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folhas de estanho, 
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.) 

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei 
A caligrafia rápida destes versos, 
Pórtico partido para o Impossível. 
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas, 
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro 
A roupa suja que sou, sem rol, pra o decurso das coisas, 
E fico em casa sem camisa. 

(Tu, que consolas, que não existes e por isso consolas, 
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva, 
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta, 
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida, 
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua, 
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais, 
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -, 
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado. 
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco 
A mim mesmo e não encontro nada. 
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta. 
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam, 
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam, 
Vejo os cães que também existem, 
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo, 
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.) 

Vivi, estudei, amei, e até cri, 
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu. 
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira, 
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses 
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso); 
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo 
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente. 

Fiz de mim o que não soube, 
E o que podia fazer de mim não o fiz. 
O dominó que vesti era errado. 
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me. 
Quando quis tirar a máscara, 
Estava pegada à cara. 
Quando a tirei e me vi ao espelho, 
Já tinha envelhecido. 
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado. 
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário 
Como um cão tolerado pela gerência 
Por ser inofensivo 
E vou escrever esta história para provar que sou sublime. 

Essência musical dos meus versos inúteis, 
Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse, 
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte, 
Calcando aos pés a consciência de estar existindo, 
Como um tapete em que um bêbado tropeça 
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada. 

Mas o dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta. 
Olhou-o com o desconforto da cabeça mal voltada 
E com o desconforto da alma mal-entendendo. 
Ele morrerá e eu morrerei. 
Ele deixará a tabuleta, e eu deixarei versos. 
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta, 
E a língua em que foram escritos os versos. 
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu. 
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente 
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas, 
Sempre uma coisa defronte da outra, 
Sempre uma coisa tão inútil como a outra, 
Sempre o impossível tão estúpido como o real, 
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície, 
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra. 

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?), 
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim. 
Semiergo-me enérgico, convencido, humano, 
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário. 

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los 
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos. 
Sigo o fumo como uma rota própria, 
E gozo, num momento sensitivo e competente, 
A libertação de todas as especulações 
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto. 

Depois deito-me para trás na cadeira 
E continuo fumando. 
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando. 

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira 
Talvez fosse feliz.) 
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela. 

O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?). 
Ah, conheço-o: é o Esteves sem metafísica. 
(O dono da Tabacaria chegou à porta.) 
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me. 
Acenou-me adeus gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o dono da Tabacaria sorriu. 

Álvaro de Campos, in "Poemas" 
Heterónimo de Fernando Pessoa

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Amar


1960 - ANTOLOGIA POÉTICA


Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar,desamar, amar?
Sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

Carlos Drummond de Andrade


by FB (Nota: 11.Março.2011)

Solidão


"... 
Minha alma tem o peso da luz. 
Tem o peso da música. 
Tem o peso da palavra nunca dita, prestes quem sabe a ser dita. 
Tem o peso de uma lembrança. 
Tem o peso de uma saudade. 
Tem o peso de um olhar. 
Pesa como pesa uma ausência.
E a lágrima que não se chorou. 
Tem o imaterial peso da solidão no meio de outros.
... 
Mas o vazio tem o valor e a semelhança do pleno. 
Um meio de obter é não procurar, um meio de ter é o de não pedir e somente acreditar que o silêncio que eu creio em mim é a resposta a meu - a meu mistério. 
..."
  
(Clarice Lispector)

by FB (Nota 13.Jan.2011)

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Nem mais...



Não é facil tomar consciência que efectivamente há coisas que nunca mudarão e pessoas que continuarão iguais a sí  mesmas! ...mas é uma realidade!


Never Ending Story - Limahl (with lyrics)

Rita Redshoes - Captain Of My Soul

Rita Redshoes - You Should Go - Official Video

Fez-se a vontade de tantos.....Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Salvaterra de Magos


Há um problema grave na Assoc. Hum. Dos Bombeiros Voluntários de Salvaterra de Magos, a demissão do Tesoureiro irá trazer o caos, pois o mesmo recusa-se a continuar a colaborar com a Associação, a assinar o que é necessário, até porque assim deveria ser, deveria continuar a assinar documentos até ser substituido, mas é assim....outros interesses se levantam.....

O  Sr. António Malheiro anunciou à Rádio Marinhais que tinha pedido a sua demissão ao presidente da mesa da Ass.Geral, os pavões agitaram-se....e o curioso é que a agitação não foi na sede da AHBVSM, mas estrangamente noutro local onde é possivel e onde é permitido o pavoneamento...

Parece que está feita a vontade a muitos...só se espera é que esses tais que quando hajam eleições se cheguém “a frente” no sentido, de mais uma vez me repito, não para protagonismo, mas sim para ajudar esta Associação a vingar, visto ser um serviço primordial para o nosso Concelho.

Tenho dúvidas que as areias que têm surgido na engrenagem para propositadamente, provocar o que acabou por acontecer, saibam desenvencilhar-se desta situação complicada e que não ande apenas com joguinhos de poder....  

Muita água está para correr debaixo desta ponte..............


terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

...o verdadeiro artista!



Como gostariamos de ser menos piegas....como gostariamos Sr. 1º Ministro.....

Na noticia abaixo existem passagens tão interessantes....

"...velhos comportamentos preguiçosos..."
"...demasiado autocentrados..."
Deveremos adoptar comportamentos... "...descomplexados, mais abertos, mais competitivos..."
....como será possível criar estes novos comportamentos...com o poder de compra na rua da amargura, com as nossas empresas ....como estão....enfim...não percebo como conseguiremos ser tudo isso que se pretende.....não consigo....de todo!!
Este Sr. vive onde?????????
"...atitudes ambiciosas e exigentes...." em vez de continuarmos "agarrados ao passado".....

"Quem empresta dinheiro trabalha enquanto o país aproveita os feriados e as pontes.".....gritante.....
...poderemos pedir a quem nos empresta dinheiro para comemorar o 25 de Abril....que tal?!?

O nosso 1º ministro é o verdadeiro "artista".

Noticia:
"Temos de ser ambiciosos e exigentes com o ensino, com a investigação  e o saber, com as empresas", afirmou Passos Coelho durante uma intervenção  na cerimónia do 40. aniversário das escolas do grupo Pedago, que tem sede  em Odivelas, e em cujo Instituto de Ciências Educativas deu aulas. 
Para Passos Coelho, "hoje, mais do que nunca", é preciso "enfatizar  a relevância" de os portugueses serem "totalmente exigentes e nada complacentes  com a facilidade", apelando à "transformação de velhas estruturas e velhos  comportamentos muito preguiçosos ou, às vezes, demasiado autocentrados",  por outros "descomplexados, mais abertos, mais competitivos". 
A este propósito, deu como exemplo da "diferença" entre uma atitude  ambiciosa e exigente e outra "agarrada ao passado" o debate em torno da  tolerância de ponto no Carnaval, considerando que há quem prefira continuar  a "lamentar-se com as medidas, com os feriados, com o Carnaval" em vez de  lançar "mãos à obra". 
Passos Coelho lembrou que o país vive uma situação de "emergência nacional"  e como foi "caricato" aquilo que aconteceu no ano passado, quando a troika  estava em Portugal para negociar a assistência financeira: "Quem emprestava  dinheiro trabalhava enquanto o país aproveitava os feriados e as pontes". É essa "primeira imagem negativa" que o primeiro-ministro diz tentar  afastar diariamente. 
"Se queremos que nos olhem com respeito temos de nos olhar com respeito",  insistiu, criticando ainda discursos que consideram que há "demasiada austeridade",  que as medidas adotadas para corrigir os défices do país são "muito difíceis"  e, portanto, é melhor "andar para trás" e voltar "a gastar o dinheiro" que  o país não tem, até porque "o FMI e a UE hão de emprestar mais dinheiro,  que remédio", já que Portugal faz parte da zona euro. "Devemos persistir, ser exigentes, não sermos piegas e ter pena dos  alunos, coitadinhos,  que sofrem tanto para aprender", ilustrou, considerando  que só com "persistência", "exigência" e "intransigência" o país terá "credibilidade".
O primeiro-ministro considerou ainda que esta atitude de exigência deve  começar na escola mas estender-se a todos os níveis da sociedade e deu como  exemplo as empresas. 
Para Passos Coelho, não se deve consumir "o que é português só porque  é português": "Temos de incutir em quem produz exigência e qualidade. Sabemos  produzir com qualidade e devemos premiar aqueles que o fazem", afirmou.
O primeiro-ministro pegou ainda no exemplo da escola e do ensino para  defender que "se criou a falácia" de que as grandes reformas levam anos  a produzir efeitos.  
"Não é verdade. Em cada aula que se dá, tudo pode mudar. As pessoas  ajustam-se rapidamente à mudança. Mas tem de haver uma mudança. Agora se  se arranjam sempre desculpas e explicações para os maus resultados...",  afirmou. 
"Os agentes ajustam-se muito rapidamente e antecipam os resultados quando  há credibilidade", acrescentou.